Benefícios da Música: O que a ciência revela sobre o cérebro e a saúde mental
Autor: Tomás Savin — Redator de saúde
Revisado por Sérgio Medeiros — Farmacêutico CRF-59232 – Especialista em Farmácia Clínica
Revisão científica: Editor Científico VivaBemCsaude
Data de publicação: 04/02/2023
Data de revisão: 17/03/2026
Atualizado em: 07/04/2026
Fontes: Cochrane, PubMed, European Journal of Public Health, Ministério da Saúde.
A música é uma experiência sensorial universal, presente em diferentes culturas e contextos sociais, com forte impacto sobre as emoções e o comportamento humano. Mais do que entretenimento, ouvir música envolve processos cognitivos e neurológicos complexos, capazes de influenciar a forma como pensamos, sentimos e reagimos ao ambiente.
Evidências científicas sugerem que a exposição à música pode modular áreas do cérebro relacionadas à memória, atenção e regulação emocional. Além disso, a prática de ouvir música tem sido associada à redução do estresse, melhora do humor e maior capacidade de concentração em diferentes contextos do dia a dia.
Ao evocar lembranças e emoções, a música também desempenha um papel importante na construção da experiência subjetiva, permitindo revisitar momentos significativos e fortalecer conexões emocionais. Nesse sentido, seu uso vai além do prazer auditivo, podendo atuar como uma estratégia complementar para o bem-estar mental e emocional.
Uma pesquisa detalhada, divulgada no European Journal of Public Health em 2023, examinou vários estudos sobre o impacto da música em nossa saúde. Os resultados sugerem que ela pode de fato contribuir para melhorar o ânimo, reduzir a tensão e até mesmo promover nosso bem-estar geral.
O que a ciência diz sobre os benefícios da música
A relação entre música e saúde tem sido amplamente investigada. Nesse contexto, evidências indicam que a audição musical pode influenciar o estresse, o humor e funções cognitivas. Do ponto de vista fisiológico, a música atua sobre o sistema nervoso autônomo, modulando respostas emocionais e de relaxamento.
À luz dessas evidências, um estudo conduzido por Marlieke van Swieten (2025), publicado na revista Res Dev Disabil indexado na PubMed, observou que ouvir música em situações de estresse esteve associado à redução da frequência cardíaca e da condutância da pele, além de melhora do humor.
De forma consistente, tanto músicas escolhidas pelos participantes quanto playlists personalizadas apresentaram efeitos semelhantes, especialmente quando associadas a menor ativação fisiológica.
Por outro lado, os efeitos podem variar conforme preferências individuais e contexto. Diante disso, a música deve ser entendida como uma estratégia complementar para o bem-estar mental e emocional.
1.Benefícios da música: Como ela pode transformar seu cérebro e harmonizar sua mente
Como a música afeta o cérebro e as emoções. Ouvir música várias vezes ao dia não é só um hábito agradável, mas também uma atividade que pode afetar diretamente o funcionamento do cérebro e a estabilidade emocional.
Pesquisas em neurociência indicam que a música estimula regiões do cérebro relacionadas à memória, emoção e recompensa, liberando neurotransmissores como a dopamina, que está ligada à sensação de prazer e bem-estar. Isso explica por que algumas músicas podem melhorar o humor quase que imediatamente.
Ademais, a exposição regular à música pode:
- Diminuir os níveis de estresse e ansiedade;
- Aprimorar a concentração e o foco;
- Fomentar a criatividade;
- Ajudar na gestão emocional.
Em um contexto atual caracterizado por pressão constante, sobrecarga de estímulos e ritmo acelerado, esses impactos se tornam ainda mais significativos para a saúde mental. Outro ponto interessante é a capacidade da música de nos levar a diferentes períodos da nossa vida. Uma melodia simples pode evocar memórias, sentimentos e sensações intensas, atuando como um “atalho emocional“.
No cotidiano, situações habituais como congestionamentos, filas ou longos tempos de espera podem se tornar mais toleráveis com a utilização da música. Contudo, vale ressaltar que o efeito nem sempre é positivo: a música pode causar irritação ou desconforto, dependendo do estilo, do volume ou do estado emocional da pessoa.
Em outras palavras, a experiência musical é muito pessoal — e é exatamente por isso que aprender a escolher o que ouvir é tão importante.
Apesar de a música proporcionar vários benefícios para o bem-estar, ela não é um substituto para o acompanhamento médico ou psicológico. É essencial procurar ajuda profissional em situações de ansiedade, estresse crônico ou outros transtornos.
2. Benefícios da música: Revisão científica mostra redução da depressão em pacientes com demência
Uma nova revisão científica da organização Cochrane apresentou evidências significativas a respeito da aplicação da musicoterapia no tratamento de indivíduos com demência, uma condição neurológica progressiva que impacta a memória, o comportamento e as emoções.
A pesquisa examinou dados de 30 estudos com 1.720 participantes, predominantemente idosos residentes em instituições de longa permanência. Os achados sugerem que intervenções musicais podem diminuir sintomas depressivos e aprimorar comportamentos, particularmente no curto prazo.
A demência, que engloba doenças como o Alzheimer, impacta milhões de pessoas ao redor do mundo. De acordo com a Alzheimer’s Disease International, em 2019 havia aproximadamente 55 milhões de casos — cifra que pode aumentar para 139 milhões até 2050.
Segundo a pesquisadora Jenny van der Steen, do Centro Médico da Universidade de Leiden, a musicoterapia pode ser uma ferramenta importante no cuidado centrado na pessoa: “A música contribui para melhorar o humor e o comportamento de maneira acessível, mesmo em estágios avançados da demência.”
Resultados mais relevantes da pesquisa:
- Diminuição dos sintomas depressivos;
- Possível aprimoramento nas relações sociais;
- Diminuição da ansiedade em relação a outras intervenções;
- Baixo impacto na agitação, agressividade ou cognição;
- Efeitos de longo prazo ainda desconhecidos.
A coautora Annemieke Vink ressalta que a musicoterapia surge como uma opção não farmacológica promissora: “Trata-se de uma estratégia focada no indivíduo, que pode auxiliar as pessoas a se sentirem menos tristes e ansiosas.”
Apesar das vantagens identificadas, os especialistas destacam que a musicoterapia não substitui o tratamento médico, mas o complementa. Nesse contexto, o estudo aponta uma lacuna importante: a maioria das pesquisas foi conduzida em países de alta renda e lares de idosos, o que enfatiza a necessidade de mais investigações em contextos comunitários.
A revisão enfatiza a relevância crescente dos tratamentos não farmacológicos no tratamento da demência. A música é simples, fácil de acessar e está sempre disponível, o que a torna uma possível aliada na promoção do bem-estar, especialmente no que diz respeito às emoções.
3. A música realmente reduz o estresse? Veja o que acontece no seu corpo
A música pode influenciar diretamente a resposta do corpo ao estresse. Pesquisas sugerem que sons suaves, particularmente os instrumentais, contribuem para a redução dos níveis de cortisol, hormônio associado ao estresse, além de diminuir a frequência cardíaca e favorecer o relaxamento.
Esse fenômeno acontece porque o cérebro percebe a música como um estímulo emocional, ativando regiões ligadas ao prazer e à regulação das emoções. Como resultado, muitas pessoas relatam que ouvir música traz alívio, tranquilidade e até redução da ansiedade.
Entretanto, o efeito pode variar: em alguns casos, músicas muito agitadas ou tocadas em alto volume podem ter o efeito contrário, elevando a tensão.
Uma análise sistemática conduzida por Tamminga e colaboradores (2023), divulgada na revista Cochrane, que analisou 117 estudos envolvendo mais de 11 mil profissionais de saúde, sugere que intervenções individuais podem contribuir para a redução do estresse no trabalho, com efeitos que podem se prolongar por até um ano.
Dentre as estratégias avaliadas, sobressaem-se:
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC);
- Métodos para relaxar o corpo e a mente;
- Atenção plena e meditação;
- Práticas como ioga e tai chi;
- Música, massagem e acupuntura.
Essas intervenções demonstraram benefícios na diminuição de sintomas como ansiedade, depressão, tensão muscular e problemas de concentração, frequentes em profissionais submetidos a alta carga emocional e jornadas de trabalho intensas.
Padrão das evidências
Embora os resultados sejam positivos, os pesquisadores consideram as evidências limitadas ou de baixa qualidade por causa de:
- Estudos de menor escala;
- Ausência de cegamento dos participantes;
- Análise limitada das causas estruturais do estresse.
Especialistas ressaltam que trabalhar apenas com o indivíduo não é o bastante. Para obter resultados mais consistentes, também é fundamental aprimorar:
- Ambiente de trabalho;
- Carga de trabalho;
- Escassez de profissionais;
- Pressão da empresa.
Intervenções individuais são eficazes e podem trazer benefícios concretos a curto e médio prazo. Porém, para reduzir efetivamente o estresse ocupacional, é necessário adotar uma abordagem mais abrangente, que inclua mudanças estruturais no local de trabalho.
4. Música melhora a concentração? Veja o que a ciência diz sobre produtividade
A conexão entre produtividade e música varia de acordo com o ambiente e o perfil do indivíduo. A música pode auxiliar na manutenção da concentração e diminuição das distrações ao executar tarefas repetitivas ou que demandam pouco esforço mental.
Pesquisas indicam que um ambiente sonoro neutro ou música instrumental podem melhorar a concentração, especialmente durante o trabalho ou estudo. Esse efeito está relacionado ao chamado “estado de fluxo”, em que a pessoa está mais envolvida na atividade.
Em contrapartida, músicas com letras muito estimulantes podem atrapalhar atividades que demandam alta concentração, como leitura complexa ou raciocínio lógico.
Uma revisão sistemática divulgada no Journal of Public Health (2023) sugere que a musicoterapia pode diminuir de forma significativa o estresse, a carga mental e a ansiedade em profissionais da saúde. Contudo, os autores ressaltam que os resultados variam de acordo com elementos como gênero musical, contexto de uso e abordagem terapêutica empregada (PADILLAH et al., 2023).
A pesquisa destaca que a música tem um impacto direto:
- Humor e emoções;
- Concentração e atenção;
- Desempenho cognitivo no ambiente de trabalho.
Gêneros como música instrumental e sons ambientes geralmente ajudam na concentração, ao passo que músicas mais energéticas podem elevar o humor e a motivação.
A aplicação de IA na música desponta como uma inovação promissora. Sistemas inteligentes são capazes de:
- Examinar as preferências pessoais;
- Levar em conta dados fisiológicos e contexto;
- Elaborar playlists personalizadas em tempo real.
Essa personalização pode aumentar os efeitos terapêuticos, tornando a intervenção mais eficiente no local de trabalho.
Restrições e melhores práticas
Embora haja benefícios, os autores enfatizam que:
- Nem todos os gêneros musicais funcionam da mesma maneira;
- A escolha errada pode afetar o foco ou o desempenho;
- Ainda é preciso realizar mais pesquisas para padronizar os protocolos.
A musicoterapia, particularmente quando integrada à inteligência artificial, constitui uma abordagem inovadora para promover o bem-estar e aumentar a produtividade no ambiente de trabalho. Entretanto, sua eficácia depende da personalização e do uso responsável, levando em consideração as demandas individuais e o ambiente de trabalho.
5. Música clássica faz bem para o cérebro? Veja o que a ciência descobriu
É comum associar compositores como Wolfgang Amadeus Mozart e Ludwig van Beethoven a vantagens cognitivas. Contudo, é fundamental distinguir entre a percepção popular e a evidência científica.
O chamado “efeito Mozart” — a noção de que ouvir música clássica melhora a inteligência — não tem comprovação sólida. Mesmo assim, pesquisas sugerem que esse gênero musical pode proporcionar benefícios indiretos significativos. Entre os principais benefícios da música estão:
Efeitos positivos potenciais
- Promove o relaxamento e diminui o estresse;
- Melhora o humor e a qualidade de vida;
- Ajuda a manter a concentração e o foco;
- Ativa regiões do cérebro associadas à memória e à atenção.
Ademais, por ser majoritariamente instrumental, a música clássica costuma causar menos interferência cognitiva, tornando-se uma alternativa eficaz para atividades como estudo e trabalho.
Uma revisão científica divulgada na revista Brain, Behavior, and Immunity – Health (2023), disponível na PubMed, ressalta que a música é um estímulo complexo que pode ativar diversos sistemas cerebrais, abrangendo áreas sensoriais, cognitivas, emocionais e motoras, e gerando impactos significativos no funcionamento humano.
A música ativa redes cerebrais em várias frequências e tem a capacidade de:
- Aprimorar a memória, a atenção e a linguagem;
- Afetar emoções e condições mentais;
- Promover vínculos sociais.
O treinamento musical, particularmente, está ligado à neuroplasticidade, provocando alterações estruturais no cérebro, tais como:
- Expansão da substância cinzenta e branca;
- Maior conexão entre os hemisférios (corpo caloso);
- Reestruturação das áreas corticais.
Efeitos biológicos e psicológicos
Além disso, a música influencia os sistemas hormonais e neurológicos, sendo capaz de:
- Promover a liberação de endorfinas e ocitocina;
- Diminuir a dor, o estresse e a ansiedade;
- Ativar a chamada rede de modo padrão, relacionada à autoconsciência e empatia.
A música pode tratar doenças? Veja como funciona na prática clínica
A musicoterapia é considerada uma intervenção não farmacológica eficiente, trazendo benefícios para várias condições, tais como:
- Acidente Vascular Cerebral;
- Doença de Parkinson;
- Demência;
- Câncer.
A integração entre neurociência, saúde e música permite desenvolver intervenções mais eficazes e baseadas em evidências, como a musicoterapia personalizada, ajustada às necessidades e respostas de cada paciente.
Na prática, isso pode incluir:
- Aplicação da música na reabilitação neurológica (funções motoras, fala e memória);
- Diminuição da ansiedade e da dor em ambientes clínicos;
- Apoio à saúde mental e aprimoramento da qualidade de vida.
Ademais, há um interesse crescente em investigar se outras formas de arte, como dança e artes visuais, podem proporcionar benefícios semelhantes, expandindo assim as alternativas terapêuticas não farmacológicas.
Embora os resultados sejam promissores, os autores enfatizam a necessidade de:
- Mais pesquisas de longo prazo;
- Intervenções personalizadas (gosto musical e contexto cultural);
- Interligação entre campos como neurociência, saúde e música
A música tem um grande potencial terapêutico, pois estimula a neuroplasticidade e afeta várias áreas da saúde. Quando utilizada de maneira organizada, especialmente na musicoterapia, pode ter um impacto considerável no tratamento de doenças e na promoção do bem-estar ao longo da vida (SAIFMAN et al., 2022).
6. Como a música melhora seu bem-estar no dia a dia — segundo a ciência
A música faz parte do cotidiano e pode ter um impacto direto no bem-estar físico e emocional. De acordo com pesquisas em neurociência, em situações cotidianas como trânsito, filas ou momentos de cansaço, ouvir uma música agradável pode diminuir a tensão e tornar a experiência mais leve.
Principais benefícios da música comprovados incluem:
- Aprimoramento do humor e sensação de prazer;
- Incentivo à memória emocional e à nostalgia;
- Diminuição da sensação de estresse;
- Auxílio na gestão emocional;
- Sensação de companhia e aconchego.
Ademais, a música tem o potencial de fortalecer os laços sociais, promovendo a empatia e a conexão emocional entre os indivíduos.
Estudos sugerem que a música estimula regiões do cérebro associadas às emoções e à memória, o que ajuda a explicar seus efeitos benéficos no dia a dia. Apesar de não ser um substituto para tratamentos médicos, seu uso frequente pode ser uma maneira simples e econômica de melhorar a qualidade de vida.
Ouvir música música — principalmente as favoritas — estimula o sistema de recompensa cerebral. Uma pesquisa utilizando tomografia PET revelou que momentos de intenso prazer musical (“frisson”) elevam a atividade em regiões associadas à emoção, motivação e prazer, como o estriado ventral, a amígdala e o córtex pré-frontal.
Um estudo de Zaatar (2023), publicado na revista Brain Behav Immun Health, reforça essas evidências ao destacar o papel da música na ativação de circuitos ligados à recompensa e às emoções.
Esses achados destacam a música como uma ferramenta complementar promissora para o bem-estar, contribuindo para a diminuição do estresse e o equilíbrio emocional.
Contudo, os efeitos dependem do contexto, da forma de uso e das preferências pessoais, o que ressalta a necessidade de estratégias personalizadas.
7. A música pode reduzir inflamação no corpo? A ciência começa a responder
Pesquisas recentes exploram como a música e a musicoterapia podem afetar processos inflamatórios no organismo, particularmente por meio de marcadores como IL-6 e TNF-α, associados ao estresse e a várias doenças crônicas.
As evidências sugerem que a musicoterapia, especialmente quando integrada a outras atividades como yoga, pode diminuir esses marcadores inflamatórios. Por exemplo, em uma pesquisa com homens hipertensos de meia-idade, uma intervenção de 12 semanas levou a uma redução significativa nos níveis de IL-6 e TNF-α, além de uma melhora na pressão arterial.
Em contrapartida, os efeitos da música isolada a curto prazo ainda não são claros. Em indivíduos saudáveis, sessões únicas de 30 minutos de música não mostraram mudanças significativas nesses biomarcadores, indicando que os benefícios podem variar conforme a duração da exposição ou o estado de saúde da pessoa.
Nesse contexto, revisões científicas indicam resultados encorajadores em grupos específicos, como idosos com doenças crônicas e crianças, sugerindo uma diminuição da inflamação e aprimoramento das respostas neuroimunes. Contudo, a comparação direta entre muitos desses estudos é dificultada por suas diferentes metodologias.
Ademais, há indícios de que a música pode diminuir o cortisol, conhecido como hormônio do estresse, porém seus efeitos em relação a outros marcadores inflamatórios ainda não são conclusivos.
Limitações importantes
Embora os resultados sejam positivos, os especialistas ressaltam que:
- Ainda existem poucos ensaios clínicos sólidos em humanos;
- Os protocolos musicais diferem bastante em tipo, duração e intensidade;
- Faltam estudos de longo prazo.
A ciência indica que a música, particularmente quando utilizada de maneira terapêutica, pode contribuir para a regulação da inflamação em indivíduos com doenças crônicas. Contudo, os efeitos ainda não são completamente entendidos, especialmente em pessoas saudáveis.
Portanto, a música deve ser considerada uma estratégia adicional para o bem-estar, em vez de um substituto para tratamentos médicos.
8. A música pode proteger o cérebro? O que a ciência já descobriu sobre memória e demência
A conexão entre música e saúde cerebral tem recebido atenção crescente na ciência, particularmente no que diz respeito a demências, como a doença de Alzheimer.
Pesquisas sugerem que a “memória musical” pode se manter intacta mesmo em estágios avançados da doença de Alzheimer, quando outras memórias já foram afetadas. Isso acontece porque a música ativa uma extensa rede cerebral relacionada à emoção e à memória, que é afetada mais tarde na doença.
Uma análise publicada nos Annals of the New York Academy of Sciences corrobora essa teoria, indicando que a música ativa regiões cerebrais como o córtex pré-frontal, hipocampo e sistema límbico, contribuindo para a manutenção de respostas emocionais e memórias associadas (MATZIORINIS; KOELSCH, 2022).
Esse fenômeno tem incentivado a utilização da música como uma abordagem não farmacológica no tratamento de pacientes. Pesquisas sugerem que atividades como ouvir música, cantar ou tocar instrumentos podem aprimorar a cognição, a memória autobiográfica, o humor e até diminuir sintomas como ansiedade e agitação.
Por outro lado, existem evidências de que o engajamento com a música ao longo da vida pode favorecer a chamada “reserva cognitiva”, um mecanismo que auxilia o cérebro a enfrentar o processo de envelhecimento de forma mais eficaz. Alguns estudos também indicam efeitos biológicos, como maior conectividade cerebral e possível impacto em genes relacionados à neuroproteção.
Contudo, especialistas advertem que ainda não existe evidência concreta de que a música possa prevenir a demência. A maioria das pesquisas é realizada com pacientes já diagnosticados, e há uma falta de estudos de longo prazo que comprovem um efeito preventivo real.
Efeitos da musicoterapia na cognição, memória e sintomas
Revisões sistemáticas e ensaios clínicos fornecem evidências de que a musicoterapia pode trazer benefícios em várias áreas cognitivas e emocionais. Entre os principais efeitos observados estão:
- melhora da cognição global;
- memória;
- especialmente a memória autobiográfica;
- da fluência verbal e da atenção.
Ademais, tem-se observado que intervenções musicais podem aliviar sintomas como ansiedade, agitação e mudanças de humor, principalmente em grupos clínicos, como idosos com demência.
Os resultados indicam que estratégias ativas que envolvem a participação do paciente, como cantar ou tocar instrumentos, tendem a ser mais eficazes do que terapias passivas, como apenas ouvir música.
Embora os resultados sejam promissores, especialistas alertam que os efeitos podem variar de acordo com o tipo de intervenção, duração e perfil do paciente, sendo necessário cuidado ao generalizar os efeitos.
FAQ — Perguntas Frequentes
P1. A música realmente pode mudar o cérebro?
Sim — pesquisas em neurociência indicam que a música envolve várias regiões do cérebro simultaneamente, abrangendo áreas relacionadas à memória, emoção e recompensa.
De acordo com estudos compilados em bases como PubMed e revisões científicas, esse estímulo pode promover a neuroplasticidade, que é a habilidade do cérebro de se adaptar e formar novas conexões.
P2. Ouvir música ajuda a reduzir o estresse?
Pode ajudar, sim. Estudos científicos mostram que a música, principalmente a instrumental e mais suave.
Neste contexto, pode diminuir a frequência cardíaca e reduzir os níveis de cortisol, hormônio associado ao estresse. Contudo, o efeito varia de indivíduo para indivíduo e depende do gênero musical e do contexto.
P3. A música melhora a memória e a concentração?
Em várias situações, sim. Pesquisas como a de PADILLAH et al. (2023) indicam que a música pode aumentar a concentração e a performance, especialmente em atividades repetitivas.
Por outro lado, em tarefas que demandam alta concentração, músicas com letra podem ser prejudiciais.
P4. A música pode prevenir doenças como Alzheimer
Ainda não existe evidência direta. Estudos sugerem que a música pode contribuir para a chamada “reserva cognitiva” e melhorar a qualidade de vida.
Porém não há evidências suficientes de que ela previna a demência. Revisões como a de MATZIORINIS e KOELSCH (2022) corroboram essa afirmação.
P5. Por que pacientes com Alzheimer ainda lembram de músicas?
Isso ocorre porque a “memória musical” abrange regiões do cérebro que a doença afeta de forma mais tardia.
Apesar de outras memórias estarem comprometidas, o paciente é capaz de reconhecer músicas e responder emocionalmente a elas.
P6. Música pode fazer mal em algum caso?
Sim, conforme a circunstância. Músicas muito intensas, tocadas em volume alto ou que não se adequam ao momento, podem elevar a ansiedade ou dificultar a concentração. Portanto, o uso deve ser responsável e ajustado ao contexto.
P7. Música melhora produtividade no trabalho?
Pode melhorar — principalmente em tarefas automatizadas. A música contribui para manter a concentração e diminuir distrações, porém o impacto varia de acordo com o tipo de tarefa e as preferências pessoais.
P8. Música pode reduzir inflamação no corpo?
Há indícios, porém ainda não é conclusivo. Em contextos específicos, principalmente com musicoterapia.
algumas pesquisas indicam uma diminuição nos marcadores inflamatórios IL-6 e TNF-α. No entanto, ainda são necessárias pesquisas mais abrangentes com pessoas saudáveis.
P9. Qual o melhor tipo de música para o cérebro?
Não há uma resposta única. O que realmente importa é a preferência pessoal. De modo geral:
- Música instrumental → ideal para concentração;
- Música suave → ideal para relaxar;
- Música preferida → maior efeito emocional.
P10. Música pode substituir tratamento médico?
Não. A música pode ser uma estratégia complementar, porém não substitui a assistência médica ou psicológica. Esse é um aspecto enfatizado por entidades como Cochrane e Ministério da Saúde.
Conclusão
A evidência científica atual sugere que a música tem efeitos tangíveis no cérebro, afetando emoções, processos cognitivos e respostas fisiológicas ligadas ao estresse. Seus efeitos incluem melhora do humor, maior concentração e promoção do bem-estar geral, embora esses efeitos variem de acordo com as preferências pessoais e o contexto de uso.
Clinicamente, a música não substitui tratamentos médicos ou psicológicos, mas pode funcionar como uma estratégia complementar segura e acessível, principalmente quando utilizada de maneira estruturada, como na musicoterapia.
A combinação de neurociência, saúde e intervenções musicais indica um campo promissor, capaz de expandir as estratégias terapêuticas que não utilizam medicamentos. Contudo, ainda são necessários estudos de maior qualidade e duração para estabelecer protocolos e expandir a utilização clínica.
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